Vida de um ilustre Montanhista

Por Antonio Paulo Faria

      Eu estava recentemente trabalhando num projeto científico referente às montanhas do Sudoeste da África, e me lembrei de um episódio importante que foi a descoberta e a ascensão da montanha mais alta daquela região, em 1917. E vejam só, essa história tem relações com a descoberta do Pico Paraná. Até onde se sabe, ele foi subido pela primeira vez em 1941 e é a montanha mais alta da região Sul. Esses dois acontecimentos trazem um personagem muito especial desconhecido da maioria dos montanhistas brasileiros, que foi o alemão-brasileiro Reinhard Maack. A sua vida parece ser irreal, mais parecendo um daqueles filmes de ficção. O resumo de sua vida, a parte que interessa aos montanhistas, é sumarizada a seguir.

Reinhard Maack      Maack nasceu em 1892, na Alemanha. Aos 18 anos se especializou em geodésia (área vinculada à engenharia cartográfica). Ele era muito inquieto e queria conhecer o mundo. Como era plena época das grandes expedições exploratórias, em 1911 ele se inscreveu para participar da expedição alemã à Antártica e naquele mesmo ano o Pólo Sul foi conquistado pelo norueguês Roald Amundsen. Mas Maack não foi aceito na expedição por ser muito jovem. Em maio de 1911 viajou para o Sudoeste da África para tentar a sorte e conseguiu emprego no Serviço Geodésico de Windhoek, na Namíbia. Porém, a I Guerra Mundial eclodiu e ele foi convocado para servir ao exército alemão. Ao longo de um ano de combates, a pequena unidade do Exército Alemão Colonial se rendeu às tropas britânicas, mas ele e seis companheiros fugiram e tentaram cruzar o continente africano para se juntar às outras tropas que se situavam no Leste da África. Porém, quatro de seus companheiros foram capturados pelos ingleses, mas Maack, um sargento e um sub-oficial foram forçados a irem para o norte do deserto do Kalahari. Ao tentar conseguir roupas e munição, uma patrulha inglesa afugentou Maack, que dessa vez sozinho, teve que ir para o sul do Kalahari, onde permaneceu durante seis meses num solitário olho-d’água.

      Em 1914, um ferimento o obrigou a procurar auxílio médico e ele foi para Swakopmund, onde encontrou A. Hofmann, um colega cartógrafo da Sociedade Colonial Alemã. Durante a sua estadia nessa cidade, Maack e seu companheiro tiveram a oportunidade de observar uma estranha elevação que eles calcularam estar a 250 km de distância, sendo conhecida como montanhas Messum. No mapa o ponto culminante constava como tendo 1.100 metros de altitude. Curiosos, ele e Hofmann resolveram fazer uma expedição exploratória à montanha, porque achavam que aquela altitude estava errada, segundo eles, ela poderia ter aproximadamente 3.000 m de altitude. Na primeira expedição fizeram o mapeamento da área, mas não conseguiram subir a montanha. Depois, em 1917, por conta própria Maack organizou uma segunda expedição para chegar ao cume. Conseguiram e mediram a altitude. Descobriram que ela não tinha apenas 1.100 metros, como constava no mapa, a altitude que eles mediram era de 2.606 m. Mas décadas depois com medições utilizando métodos mais precisos revelaram a altitude de 2.586 m.

      Descobriu-se que essa montanha é a mais alta do Sudoeste da África, conhecida como Brandberg. Os mapas da região produzidos por eles são até hoje utilizados devido à alta qualidade dos trabalhos. Na volta dessa expedição, Maack descobriu uma importante gruta, conhecida como a “Dama Branca”, rica em artefatos pré-históricos. Vários arqueólogos de renome trabalharam lá junto com Maack e publicaram trabalhos importantes.

      Em 1919 ele organizou uma outra expedição para a Namíbia, mas dessa vez para mapear o deserto. Ocorreram alguns problemas e ele passou quatro dias delirando de sede e caminhando incosciente, até conseguir achar o oásis de onde havia partido. Mas apesar desse incidente, ele conseguiu realizar o trabalho. Em 1920, ainda vivendo como um fugitivo da guerra e vivendo com um nome falso, Maack foi reabilitado para trabalhar para a companhia de mineração British South Africa Survey. Neste período ele deu aulas de matemática num colégio e depois regressou à Alemanha. Depois de realizar diversos outros trabalhos, ele resolveu vir ao Brasil, quando chegou em 1923 para trabalhar como engenheiro de minas em uma companhia de mineração. Passou quatro anos em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, depois ele voltou para a Alemanha. Em 1928, ele começou a estudar Geografia e Geologia e posteriormente, em 1930, ele retornou ao Brasil, mas dessa vez trabalhando para a Universidade de Berlim. Ele realizou diversos trabalhos de levantamento geológico e geográfico na região Sul.

      Em 1932, após se fixar definitivamente no Brasil, ele comprou terras e continuou os trabalhos de levantamento, quando em 1938, ele descobriu o ponto culminante do Paraná e da Região Sul do Brasil e o batizou de Pico Paraná (1.922 m). Em 1941, Maack e seus companheiros subiram a montanha e acredita-se que eles tenham sido os primeiros. Na época, o Pico Marumbi ou Pico Olimpo, constava nos mapas como tendo a altitude de 1.810 metros e era considerado como sendo a montanha mais alta da Região Sul. Porém, Maack descobriu que a altitude correta era de 1.547 m (hoje sabe-se que ela tem 1.539 m) e não era o ponto culminante da região Sul.

      Com a entrada do Brasil na segunda Guerra Mundial, Maack e outras pessoas importantes de origem alemã foram feitos prisioneiros. Ele ficou preso seis meses numa penitenciária em Curitiba, e depois foi transferido para o antigo presídio que existia na Ilha Grande (RJ). Por iniciativa de algumas pessoas influentes, ele foi libertado em 1944 e foi colocado à disposição para trabalhar para o governo brasileiro. Ele foi lecionar na Universidade Federal do Paraná, onde ministrou cursos de Geologia, Paleontologia e Geografia Física, formando alguns dos geólogos e geógrafos mais importantes do Brasil. Em 1949 ele foi naturalizado brasileiro por possuir terras e uma filha brasileira. Maack foi um dos pioneiros a estudar a ocorrência de glaciações no Brasil durante o período Carbonífero e a ligação da América do Sul à África em períodos geológicos passados. Outro ponto importante em sua vida foi ter sido um dos primeiros ecologistas a mostrar cientificamente os danos da devastação que ocorreu no Paraná com a derrubada da floresta nativa para dar lugar às plantações de café.

      Depois dessa fase, Maack tirou o título acadêmico de Doutor e realizou outros trabalhos também importantes, entre eles, um sobre a origem da Serra do Mar. Em 1961, ele participou de uma pequena expedição que descobriu uma tribo indígena conhecida como Xetá, que ainda vivia completamente isolada no oeste do Paraná. Porém, depois desse primeiro contato, a tribo foi dizimada devido ao contato com a civilização moderna. Ele participou de muitas outras expedições e congressos científicos em vários países de todos os continentes, tendo ido, inclusive, próximo à base do Everest em 1964, quando tinha 72 anos, o que teria sido para ele uma das maiores emoções de sua vida. Na época essa montanha era um enorme mito, porque a primeira ascensão tinha ocorrido apenas onze anos antes, em 1953. Em 1968 ele foi a um Congresso Internacional de Geologia em Praga, mas o congresso não foi realizado porque foi exatamente quando os soviéticos invadiram o país (antiga Tchecoeslováquia). Ele ficou retido no hotel de onde assitiu da janela o massacre do povo tcheco detonado pelos bombardeios soviéticos. Voltava a sua cabeça as memórias das guerras.
Reinhard Maack colecionou vários títulos importantes nacionais e internacionais e muitas homenagens foram oferecidas a ele pelo governo da Alemanha devido aos valiosos serviços prestados à ciência, à Alemanha e ao Brasil.

      Em 1969, aos 77 anos, ele faleceu como cidadão brasileiro, após ter vivido 46 anos aqui.

Os dados sobre a biografia de Reinhard Maack foram compilados da introdução do livro “Geografia Física do Estado do Paraná”, publicado pela Editora José Olympio em 1981.

Em Curitiba, há um bosque em homenagem à Maack.

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2 Responses to Vida de um ilustre Montanhista

  1. […]       Seguindo a filosofia de um dos maiores exploradores que vaguearam por aqui, conseguimos concretizar mais um desafio que a região oferecia as nossas mentes. Escalar a bela agulha adjacente ao Pico Agudo, que batizamos honrosamente de “Agulha Reinhard Maack”. […]

  2. Miriam Chaudon disse:

    Uma biografia repleta de histórias interessantes!

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