Um Outono Americano

Texto original publicado na revista MONTANHAS Nº2 – Janeiro/Fevereiro 2014

Por Andrey Romaniuk

Desprendimento…

Sigo dirigindo pelas belas estradas da California rumo a um vale mítico, quando de repente uma placa luminosa me chama atenção: ”Yosemite park is closed”. O astral daquelas paragens é tão especial que não me preocupo demasiadamente com aquele aviso. Meu plano era de passar o mês todo naquele lugar, mas na verdade não tinha me dado conta do tamanho das coisas que estavam por trás daquela mensagem, e o que aquilo implicaria em minha jornada.

Ainda faltam uns 100km para adentrar o vale, quando paro em uma cabana de informações turísticas. A pessoa me informa que todos os parques nacionais dos EUA foram fechados hoje, por motivos políticos que não compreendi bem naquele momento. Decido seguir até a entrada do parque para ver o que está rolando.

Mesmo os Rangers pareciam não entender direito a situação, e me deixam adentrar o parque, orientando-me a seguir até o camping o qual eu havia reservado e lá permanecer aguardando por mais orientações. O ambiente naquele lugar mágico onde morei por um mês no ano de 2012 estava bem diferente desta vez. Poucas pessoas, campings vazios, estabelecimentos fechados e os poucos presentes meio atordoados sem saber o que fazer. Mas eu sabia muito bem… só queria viver a vida, escalar, e tinha o vale todo sem crowd!

Conforme combinado, ao fim de tarde meu amigo veterano Joe LeMay aparece no camping Upper Pines. Com ele veio também o Adji, um comparsa brazuca que mora em L.A., professor de yoga, que está descobrindo a magia da escalada. Já tínhamos um objetivo para o outro dia… Royal Arches, 480 metros divididos em 16 enfiadas.

Eu já havia escalado esta via no ano anterior, e sabia que apesar de longa poderíamos terminá-la rápido, minha única preocupação seria Adji, que eu não conhecia muito bem, e o detalhe que estaríamos escalando em três. Já no início puxamos as 4 ou 5 primeiras enfiadas em solo, até o trecho mais empinado da parede, e minha preocupação com Adji desapareceu instantaneamente. Apesar de escalar há pouco tempo, o mestre yogi obviamente possui uma consciência corporal suprema. Escalada de pura alegria, subíamos desfrutando a parede, abastecidos por toda a energia que aquele lugar nos fornecia. Ao meio da tarde já havíamos retornado ao camping, quando ficamos sabendo que no próximo dia todo mundo deveria deixar o parque. O clima de dúvidas era geral. Ninguém sabia se este fechamento iria durar muitos dias, ou o que estaria para acontecer. Isto nunca havia acontecido na história dos EUA. Eu seguia apenas vivendo a vida, um dia de cada vez, e nada poderia me aborrecer sabendo que ainda tinha praticamente um mês de tempo livre e todo o Oeste Americano para explorar.

Adji em um Asana

O prazo era este: Quinta-feira até às 15hs todos deveriam sair. Muita gente apostou nos Big Walls e zarpou para as paredes com suprimentos para alguns dias, na esperança de que o parque reabrisse até o término da escalada. Ainda assim foram intimados pelos megafones dos Rangers a descer imediatamente. Ninguém obedeceu…

Quem ficou em terra firme não tinha escolha. Joe e Adji voltaram para suas casas, e eu segui minha jornada rumo a parte alta da Sierra Nevada, onde queria escalar algo mais selvagem. A estrada que cruza o parque de Yosemite é indescritível. Domos de granito polidos pelo tempo, lagos azuis surreais e milhares de árvores centenárias transmitiam a sensação de completude a minha alma livre.

Decidi seguir rumo a Lee Vining, uma pequena cidade no lado leste da Sierra, às margens do Mono Lake. Lá entendi um pouco mais sobre a dimensão do fechamento do parque, que na verdade era um “shutdown” do governo americano, e que todos os serviços federais estavam paralisados. Isto significava que não só o Yosemite estava fechado, mas todos os parques nacionais e outros serviços administrados pelo governo federal, que também incluía campings em diversas outras localidades.

Seguindo recomendações do guia de escaladas da High Sierra, encontrei um lugar para acampar, relativamente isolado e grátis, às margens do enorme lago salgado Mono Lake. A cidadezinha de Lee Vining estava repleta de escaladores “despejados” do vale que procuravam por outras paredes, e não seria problema encontrar parceria. Assim conheci um simpático casal do Equador que estava nessa mesma situação. Esteban Mena e Carla Perez seriam meus parceiros, e havíamos decidido escalar o Mt. Conness, com 3855 metros. A rota escolhida foi a West Ridge (450m), considerada pelo lendário Peter Croft como uma das mais belas vias da High Sierra.

Seguindo o bom estilo alpino iniciamos a caminhada de aproximação muito cedo. Após 4 horas de caminhada por campos verdejantes, lajes de rocha, neve, morainas, e descida por grotões chegamos a base da imensa crista oeste da montanha. Durante a aproximação meus pulmões trabalhavam como loucos devido a altitude, enquanto os amigos Equatorianos pareciam passear no parque. Também, estávamos praticamente à altitude de Quito, e Esteban havia escalado alguns meses antes nada menos que o Everest, sem oxigênio! Para mim, ainda vinha a escalada…

Não sei o que tirou mais meu fôlego, se foi somente a altitude ou a beleza indescritível da via. Seguimos escalando em simultâneo por aquela magnífica crista de granito amarelado, onde a sensação aérea era total com abismos vertiginosos em ambos os lados. Meu mantra “inspira, expira, escala” repetiu-se por 2 horas até atingirmos o cume. O visual era espetacular, com um céu azul coroando as diversas montanhas de Tuolumne Meadows e o distinto Half Dome partido ao meio, lá ao fundo.

Dias como estes são verdadeiramente mágicos. Quando provamos das famosas palavras de Messner: “Mas os dias que estes homens passam nas montanhas são os dias em que realmente vivem…”

 

Levado pelo vento…

Todos os anos o American Alpine Club organiza um encontro internacional de escaladores. No ano de 2012 este encontro foi realizado no vale de Yosemite, onde tive a oportunidade de participar como único representante Brasileiro. Este encontro é “fechado”, onde os escaladores são selecionados através de uma ficha de inscrição enviada previamente. Existe um valor a ser pago para participação que inclui transporte, 3 refeições diárias, taxa de camping, oficinas de escalada/resgate e diversos outros benefícios. O evento dura uma semana, e tem por objetivo confraternizar um diverso grupo de escaladores de vários países.

Neste ano consegui me inscrever novamente para este encontro, que deveria acontecer no vale. Porém, com o fechamento do parque, tudo estava incerto, e os organizadores tiveram de adaptar este imprevisto. Fomos informados que a principio o encontro seria “itinerante” e rodaríamos pela região de Bishop e Eastern Sierra. Para mim, seria mais uma oportunidade de provar diferentes experiências.

Após a escalada do Mt. Conness tive que deixar os amigos latino-americanos para seguir rumo ao “International Climbers Meet”. O campo base do encontro seria no vale de Pine Creek Canion, incrustado na Sierra Nevada. De lá, atacaríamos diariamente diferentes setores e points de escalada.

Mais de 50 pessoas de todos os cantos do mundo, comida de primeira, noites frias ao redor da fogueira, reencontrar bons amigos, contar e ouvir histórias, projeção de filmes em uma van branca (incluindo com exclusividade o Reel Rock Tour 8), e é claro muita escalada era basicamente nosso cotidiano naquela semana especial. Escalei em Owen’s River Gorge, um cânion quilométrico de basalto repleto de vias esportivas. Alabama Hills, com seus grandes blocos de granito que oferecem fendas variadas e escaladas em regletes ao melhor estilo Anhangava. E também no próprio Pine Creek Canion, um lugar fantástico, que oferece escaladas curtas ou longas, esportivas ou tradicionais, de altíssima qualidade. Destaque para as vias “Sheila” e “John Fischer Memorial Route”.

Antes de deixar o Brasil havia recebido gentilmente um exemplar do livro “As Montanhas do Marumbi” do Farofa, e do “Guia de Escalada do Marumbi, do Chiquinho, os quais doei oficialmente à biblioteca do American Alpine Club para instigar os gringos a conhecerem a beleza de nossas montanhas.

Via Sheila

Voando mais longe…

Após o evento a maioria dos participantes retornou para casa, mas eu ainda tinha duas semanas na estrada e muita vontade de escalar. Três participantes do encontro também tinham um pouco mais de tempo, e decidimos seguir juntos rumo ao norte da Sierra. Nogah (Israel), Simon (Inglaterra) e Forest (EUA) seriam meus companheiros pelos próximos dias. Combinamos que passaríamos 2 dias em Lover’s Leap, na região do Lake Tahoe, e depois seguiríamos rumo às tão sonhadas fendas de Indian Creek. O “shutdown” do governo ainda continuava há quase duas semanas, e apesar de Lover’s Leap estar aberto por não ser um parque, seu camping é administrado pelo governo federal, e isto significa que estava fechado. De qualquer maneira após rodarmos um pouco encontramos um lugar excelente para passarmos nossos dias, ou melhor, noites na região. E o melhor, de graça.

Lover’s Leap é um daqueles lugares que dá vontade de ficar para sempre. Em sua base existe uma “vilinha” como a do Marumbi, com casinhas onde eu poderia passar o resto da minha vida. Logo ao lado uma enorme parede de granito cinza de aproximadamente 130 metros, cheia de diques horizontais/diagonais, fendas e lacas, e dezenas de vias! Uma delas é a via Bear’s Reach, que Dan Osman escala correndo em speed solo naquele famoso vídeo.

Nestes dois dias é claro que provei a Bear’s Reach, escalada agradável e muito bonita. Também escalei as imperdíveis “The Line”, uma clássica de 3 enfiadas em um sistema de fendas que vai de baixo a cima da parede, como o traçado de uma linha perfeita. E a “Hospital Corner”, que passa por um diedro incrível na segunda enfiada, de movimentos alucinantes.

A maioria das vias possuem 3 enfiadas, e após chegar ao cume uma agradável trilha de 10 minutos te leva novamente a base da parede para outra escalada. Ainda existe o Strawberry Lodge, onde os escaladores se encontram ao final do dia para relaxar, tomar cerveja, comer algo e bater um papo. Tudo parece um sonho…

Lover’s Leap

Tocando o chão…

Nogah teve de retornar a Israel, e agora seguimos em três barbudos (Eu, Simon e Forest), rumo ao deserto. Seriam 1300km entre nós e a cidade de Moab. Apesar do longo trajeto, a viagem não foi tão cansativa quanto eu esperava. Gasolina barata, estrada lisa como um tapete (sem pedágios), estações de radio com as melhores trilhas sonoras que já ouvi, eu só precisava manter o carro no rumo sem mesmo pisar no acelerador, que seguia na velocidade programada pelo “cruise control”. Deixamos a California, cruzamos o Estado de Nevada e finalmente após 15 horas de boleia chegamos na calada da noite em Moab, já no Estado de Utah. Dormimos em algum canto as margens do rio Colorado e reservamos o próximo dia para nos abastecermos com comida e água, antes de partir para a vida no deserto.

Estávamos em uma região totalmente diferente da Sierra Nevada, sem florestas, sem granito, mas de uma beleza única e singular. Enormes formações de arenitos amarelos e vermelhos dominam a paisagem. Por milhares de anos povos indígenas habitavam a região, deixando em suas paredes sinais que atravessaram os milênios. Se fecharmos os olhos ainda podemos sentir a energia dos Navajos, Hopis e Anasazis, e sua harmonia com o universo.

Indian Creek

Indian Creek é o paraíso da escalada pura em fissuras. Esqueça agarras para mãos e pés, cristais, diques, lacas, chapas… apenas diedros e fendas perfeitas, paralelas, verticais ou negativas, de todos os tamanhos. E é com isso que você tem que lidar. São vias duras, exigentes fisicamente, onde as técnicas de entalamento são obrigatórias. Não existem constrições nas fissuras, e isto significa que além da técnica, é preciso fazer força, às vezes muita força! E tudo isso descobrimos na prática…

Apesar de apanharmos bastante nos primeiros dias, continuávamos felizes. Tudo é um aprendizado, e estávamos forçando nossos limites para descobrir novas formas de resolver aqueles problemas. Após alguns dias consecutivos de escalada “à toda” nas falésias, resolvemos descansar. No dia seguinte iríamos escalar uma “desert tower” fácil, a South Six Shooter.

Chegar em cima daquela torre no meio do deserto foi uma experiência extraordinária, totalmente diferente de qualquer escalada que eu já havia feito. Aquilo não é uma montanha nem uma falésia, mas tem um cume (muito pequeno), e um visual indescritível. Para nossa surpresa Forest ainda sacou 3 latas de cerveja da mochila para brindarmos a escalada… Que dia!

Baixamos da South Six Shooter, desmontamos acampamento em Indian Creek e seguimos de volta a cidade de Moab, onde iríamos abastecer nossos suprimentos e seguir para a próxima escalada: Castleton Tower, em Castle Valley. A via escolhida era a “Kor-Ingalls Route”, de 4 enfiadas, uma das 50 clássicas da América do Norte.

Começamos a aproximação de madrugada, e aos primeiros raios de sol já estávamos na base da parede. Me encarreguei de guiar a primeira enfiada em uma chaminé/offwith relativamente fácil. A segunda enfiada ficou a cargo de Simon, em uma fenda de punhos larga e trabalhosa. Forest puxou a terceira, que seria o crux da via, um offwith duro e extenuante. Grunhiu, gemeu, e passou! Agora a última era minha, em outra chaminé estreita e marota, onde tive a experiência incrível de chegar ao cume por primeiro! Assegurei meus comparsas e a alegria foi geral. Poderíamos passar dias ali em cima, contemplando aquele lugar especial.

Castleton Tower

Após esta escalada tivemos que nos despedir de Simon, que iria voltar para Inglaterra, e lembrei que a vida também oferece momentos duros. Estávamos convivendo há quase 3 semanas com seu humor britânico, e me dei conta de que eu mesmo teria que deixar aquela realidade dentro de alguns dias. Estávamos de volta a Indian Creek, eu e Forest, destruídos por tantos dias consecutivos de escalada, e decidimos fazer uma caminhada no parque de Canyonlands para “descansar”. Esta caminhada acabou em um trajeto por paisagens de outro planeta, em 16km de trilha…

Meu último dia em Indian Creek foi reservado às vias clássicas. “Supercrack of the Desert”, “Incredible Hand Crack” e outras fecharam com chave de ouro este dia, que escalei até a exaustão. Despedi-me de Forest com grande pesar e deixei “The Creek” com os olhos marejados. A viagem ainda não havia acabado. Eu teria que voltar 1700km até San Francisco para pegar meu voo de volta ao Brasil.

 

Awareness…

A vida é uma viagem intensa, uma longa jornada, que nos proporciona vivências, memórias e sensações eternizadas em nossa mente. Muitas vezes somos levados pelo destino, como as folhas no Outono. Sinto novamente o sabor do mate ao ar frio, o cheiro da floresta, a textura das rochas sob os dedos, a completude de realizar uma linda escalada, as paisagens de encher os olhos, as noites deitado junto a Mãe Terra coberto por milhares de estrelas, o uivo dos coiotes sob a lua cheia, as pessoas únicas que conheci, deixando um pouco de si, e levando um pouco de mim… Quando minha grande viagem realmente acabar, são estes momentos que carregarei comigo em meu voo pelos ventos.

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3 Responses to Um Outono Americano

  1. Naoki Arima disse:

    Muito massa o relato! Não tinha lido ainda!

  2. Paulk Farina disse:

    Registro minha sincera admiração pela qualidade do texto, pela viagem e meditações! Fraterno Abraço de Rolândia!

  3. Farina disse:

    Registro minha sincera admiração pela qualidade do texto, pela viagem e meditações! Fraterno Abraço de Rolândia!

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