Garimpeiros verticais – Piraí do Sul

Por Andrey Romaniuk

A motivação que leva cada escalador a praticar sua atividade é única e singular em cada indivíduo. Dentre algumas delas, muitos preferem a repetição de vias pré-existentes, enquanto outros buscam novidades em faces nunca escaladas. O Paraná é um Estado com histórico antigo referente as atividades de Montanha, e isto significa que, nos dias atuais, os desafios mais óbvios provavelmente já foram realizados… e muitos não tão óbvios também. Desta maneira, os montanhistas que buscam novidades são obrigados a garimpar com afinco por lugares ainda não explorados, especialmente no interior do estado, onde a Escarpa do Arenito Devoniano se estende predominantemente.

O desenvolvimento de um novo local com potencial para prática da escalada exige um grande trabalho e esforço, e também demanda um custo financeiro, fatores muitas vezes desconhecidos por outros montanhistas. É preciso adquirir chapeletas, parabolts, brocas, cola. Além disso, existe o trabalho de localização de acessos, caminhada em mato fechado, busca e identificação de possibilidades, abertura de trilhas, normalmente com diversos temperos como carrapatos, corridões de abelhas, mamangavas e vespas. Após tudo isto enfim a abertura de vias propriamente dita. Sim, abertura de vias; elas não são conquistadas. O que realmente tem de ser conquistado antes de tudo é a relação de confiança com os moradores e proprietários do local. E isto muitas vezes exige atenção especial. É importante ter em mente que esta conquista não é eterna, e deve ser constantemente zelada, pois pode ser perdida devido a condutas impróprias, vindo a anular TODOS os outros trabalhos citados anteriormente.

Durante este trabalho de “conquista” normalmente ouvimos os mais diversos questionamentos feitos pelos habitantes locais, e com frequencia uma pergunta peculiar vem à tona:

– “Vocês vieram procurar ouro nessas pedras?”

Em seguida somos alertados sobre as diversas lendas de potes e panelas de ouro escondidos nos perais.

Para nós, amantes da escalada tradicional ou em móvel, a busca eterna é pelas fendas. Independente do tipo de rocha, a preferência é por fendas verticais, onde está escondido o ouro mais precioso! Lugares onde a própria natureza criou um caminho natural pela rocha, que nos permite escalar e estabelecer nossas proteções sem alterar a parede de seu estado original. São por elas que garimpamos.

Mas, se as possibilidades de novas vias no Paraná já são difíceis de encontrar, o que dizer de então das fendas?!

O Brasil não é um país conhecido por suas escaladas puramente em fendas ou em móvel. Temos poucos lugares com tais possibilidades, e muitas vezes a maioria dos escaladores Brasileiros não se interessa por este tipo de escalada. Poucos praticantes apreciam entalar seus dedos, mãos e corpos dentro da rocha, tampouco se sentem confortáveis em cair numa peça móvel. Aqui também existe uma confusão sobre conceitos de Escalada Tradicional, muitas vezes considerada como qualquer escalada em vias longas, independente do tipo de proteções. O fato é que somos ricos em aderências, regletes e esticões com grampos! Também temos negativos e agarras! Mas fendas… são mais escassas.

Seguindo a longa extensão da Escarpa Devoniana no Paraná, já foram estabelecidas escaladas em arenito com diversas características diferentes. De regletes a agarras, a predominância são de vias esportivas com proteções fixas, ou algumas vias mistas que mesclam material móvel. Isto se deve parcialmente as características da parede, mas também a época em que as vias foram abertas. Também existe o Setor 3, em São Luiz do Purunã, onde a rocha permite diversas possibilidades de proteção móvel, normalmente em fendas horizontais, e que foi estabelecida uma ética diferenciada e moderna, da escalada limpa. Apesar disto, no Setor 3 a escalada se caracteriza mais pelo uso de agarras, não sendo obrigatório o conhecimento das técnicas de entalamentos. Dentre os setores já conhecidos da Escarpa Devoniana, o aspecto comum a todos é a negatividade das paredes. Este é um fator que, independente do setor, torna as escaladas mais atléticas e exigentes fisicamente, e também permite a prática da escalada mesmo com chuva.

E as fendas verticais?

Há tempos sonhávamos e divagávamos que poderia existir um lugar com escaladas além de nossa imaginação, como as almejadas fendas verticais norte americanas de Utah ou Yosemite, de acesso viável, guardadas as devidas proporções, aqui mesmo no nosso estado. Garimpamos muito pelo interior do Paraná, voltando muitas e muitas vezes “de mãos vazias”. Descobrimos algumas fendas aqui e ali, porém esparsas, ou de acesso mais comprometido. Mas um dia, finalmente, encontramos o ouro! E desta vez, pudemos colocar as mãos nele! As mãos, os pés, os joelhos e tudo o que conseguimos. Encontramos o lugar que rondava nossos sonhos, e que poderia ser chamado de Shangri-la da Escalada Tradicional Paranaense, ou quem sabe do Brasil… Piraí do Sul.

Piraí do Sul fica distante aproximadamente 180km de Curitiba, e apenas 75km da cidade de Ponta Grossa. Durante o século XVIII fez parte da rota dos tropeiros, ou Caminho de Sorocaba, quando tropeiros de gado do sul do país viajavam em direção a cidade paulista. Seu relevo é cortado pela Escarpa Devoniana, que separa o Primeiro e o Segundo Planalto Paranaense. Trata-se de uma região única e de grande beleza natural.

Um dos primeiros locais já estabelecidos para escalada em Piraí do Sul foi o setor Corpo Seco, onde após muito trabalho foram abertas diversas vias tradicionais excelentes de pura escalada em fendas, com uma ética moderna e exemplar. Porém, devido a motivos variados, também foram abertas vias esportivas em placas de agarras, com proteções fixas, que a meu ver parecem destoar do estilo de escalada local.

Todo trabalho exaustivo necessário para o estabelecimento de um novo local de escalada já está sendo feito em outros setores da região, em especial no setor Rupestre, repleto de belíssimas fendas, e que já conta com mais de 30 vias. O próximo trabalho está sendo de organização dos croquis para posterior divulgação. Refletimos quanto a pluralidade de estilos ocorrida anteriormente na abertura de vias do setor Corpo Seco, e ficou decidido por consenso que no setor Rupestre será aplicada prioritariamente a ética de mínimo impacto, com preferência por proteções móveis, onde o uso de proteções fixas (chapeletas ou grampos) se restrinja somente a paradas (reuniões) ou a alguma via com proteções mistas em que existam alguns lances impossíveis de serem protegidos em móvel. A prioridade deve ser dada pela qualidade das vias, e não pela quantidade. Este setor foi assim batizado por abrigar um sítio de pinturas rupestres, o que esperamos preservar como únicas marcas claramente visíveis da passagem humana em suas paredes.

Com estas novas descobertas também vem a evolução, e Piraí do Sul mostra que o Brasil também tem potencial para escalada em móvel de alto nível. O mais gratificante é presenciar diversas vias fortes já sendo encadenadas durante a própria abertura de baixo, ou outras logo na sequência, provando que o Brasil possui escaladores de alto nível nesta modalidade. Algumas das vias em móvel mais duras do Brasil podem estar em Piraí do Sul, com destaque para a Highway to Hell (9c), no setor Corpo Seco, já encadenada por Edemilson Padilha, e também a via Moby Dick, no setor Rupestre, um provável 10? ainda aguardando uma cadena. Além dos setores já conhecidos, Piraí esconde muito ouro a ser descoberto, abrindo novos horizontes para esta modalidade de escalada tão pouco difundida em nosso país.

Setor Rupestre – Piraí do SulSetor Rupestre - Piraí do Sul

Aproximação ao Setor RupestreSetor Rupestre - Aproximação

Márcio Grochocki na via “Pinhão na Brasa” (7a)Pinhão na Brasa

Taylor Thomaz na via “Feitiço de Áquila” (7c)Feitiço de Áquila

Elcio Muliki na via “A Arte da Guerra” (8a/b)A Arte da Guerra

Elcio Muliki na via “Fim da Linha” (6sup)Fim da Linha

Elcio Muliki na via “Cabeça de Vaca” (7c)Cabeça de Vaca

Alessandro Haiduke na via “Ruim com Elas” (4º)Ruim com Elas

Alessandro Haiduke na via “Sagarana” (7c)Sagarana

Daniel Amorim (Xambre) na via “Feitiço de Áquila” (7c)Feitiço de Áquila

Alessandro Haiduke na parte superior da via “Fantasmagoria” (7b)Fantasmagoria

Daniel Amorim (Xambre) na via “Pó de Mico” (8c)Pó de Mico

Alessandro Haiduke na via “Afinando o Choro” (8b)Afinando o Choro

Andrey Romaniuk na via “Sagarana” (7c)Sagarana

Elcio Muliki na via “Pó de Mico” (8c)Pó de Mico

Andrey Romaniuk na via “Pinhão na Brasa” (7a)Pinhão na Brasa

Alessandro Haiduke na via “Se vira nos Trinta” (5º)Se vira nos Trinta

Alessandro Haiduke na via “Moby Dick” (10?)Moby Dick

Alessandro Haiduke na via “Moby Dick” (10?)Moby Dick

Alessandro Haiduke na via “Moby Dick” (10?)Moby Dick

Elcio Muliki na via “A Santa Missão” (8b)A Santa Missão

Elcio Muliki na via “Sujeito Galante” (8b)Sujeito Galante

Visual do Setor RupestreSetor Rupestre

Ao fundo, Setor Unha de Gato (esq.) e Setor Panela de Ouro (dir.)Unha de Gato / Panela de Ouro

Piraí do SulPiraí do Sul

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10 respostas para Garimpeiros verticais – Piraí do Sul

  1. Miriam Chaudon disse:

    Muito lindo este local. E sobre escalada em fendas, eu particularmente , acho lindo olhar para uma montanha e não enxergar vestígio de passagem humana por ela. As fendas possibilitam essa experiência além de , na minha opinião, exigir mais do psicológico do escalador. Bem bacana o texto!

  2. Elcio Muliki disse:

    Piraí é show!!
    Quem gosta de móvel e não conhece tá perdendo!

  3. ivesleonarczyk disse:

    Ótimo Post ! Por aqui, São Carlos, também não é fácil o garimpo de novos picos. Tem alguns que tem tudo para ser a nova meca da escalada daqui, mas e o acesso nada !
    Muito legal, abrirem vias me móvel… divulgar essa filosofia de escalada, é muito bom para vermos o quão amplo é esse universo das montanhas ! Escalada de todos os tipos e gostos !
    Abraço

  4. Brito disse:

    Show! Depois se der, coloca mais informações do acesso ao setor e vias… abraço e boas escaladas…

  5. cinara de souza gomes disse:

    Adorei o texto não só pela forma clara e objetiva mas, principalmente por duas preocupações mostradas pelo grupo: a preservação do meio ambiente com o mínimo de impacto possível e
    o bom relacionamento com os proprietários.
    A Escarpa Devoniana é realmente um grande “pote de ouro”!

  6. Homer disse:

    E ai piazada, há anos deixei de lado as escaladas pra trabalhar e (de acordo com as minhas mazelas) suar o sustento dos meus pequenos. Entretanto, o amor pela natureza, sobretudo pela escalada, nunca deixou de pulsar nas minhas veias. A ponto de sempre acompanhar os relatos dos amigos de montanha – os mais diversos possíves: meu único elo com a escalada, atualmente. Fico feliz em acompanhá-los pela internet, poder ver poucas fotos e me divertir imaginado todos os tipos de “perrengues” que passaram para chegar lá. Fico feliz também em saber que continuam caminhando ou esacalando, enfim, buscando seus sonhos.
    Abração e boas conquistas.

  7. Taylor disse:

    É… tá bem complicado conseguir escalar, mas aos trancos e barrancos tenho feito minha escalada “sobreviver”, é uma batalha mental imensa não deixar o trabalho suplantar o prazer de escalar… e você, tem que dar um jeito de voltar piá!!!
    Abrass

  8. Parabéns pelo post! Estava exatamente procurando “onde escalar fendas no brasil”!! 😀
    Vai sair um “guia” para saber como chegar a Piraí do Sul e acessar os setores de escalada?

    Parabens pelo trabalho 😀

  9. Parabéns pelo post!
    Piraí está sendo o foco do momento, vias incríveis pipocando a cada investida da galera.
    Valeu!!!
    Fique na rocha!!!

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