Quem vendeu a escalada?

Por Andrey Romaniuk

      Estava lendo um artigo sobre o polêmico acontecimento no Cerro Torre envolvendo o escalador David Lama e seu patrocinador Red Bull e lembrei de outra matéria “estranha” também envolvendo a Red Bull, sobre uma escalada na Pedra Riscada feita por Stefan Glowacz e equipe. Notei que no referido texto está escrito claramente que a equipe, ou melhor, Stefan Glowacz,  havia “conquistado” a Pedra Riscada, alegando uma primeira ascensão, inclusive nas fotos da publicação.

      Não sei se fui um dos poucos escaladores que leram o texto (em inglês), ou o pessoal que não domina a língua deixou passar batido. Mas essa matéria me deixou com uma “pulga atrás da orelha”, pois sabia que já existiam várias vias brasileiras na Pedra Riscada, dentre elas: “Vento Solar”; “Vai, mas não cai não”; “Cria Cuervos”; “Onde o vento faz a curva”.

      Na época até enviei um e-mail para uma lista de discussão falando sobre isso, pois devido a falta de repercussão do texto estava um pouco em dúvida sobre o que li, e também intencionava botar algumas cabeças a refletir, sem causar muita polêmica. Porém, somente duas ou três pessoas me responderam a respeito. Nenhum outro escalador brasileiro “tomou as dores”, devido aos gringos terem atropelado nossas conquistas anteriores, cultura e história da Montanha. Ok, havia um brasileiro na equipe. Mas não entendo o real motivo desta publicidade… seria só pelo marketing ou propaganda?! 

      Tudo bem… como alguém me respondeu, talvez tenha sido um “engano bem intencionado” de alguém para conseguir o apoio necessário para a empreitada. Realmente não sei em qual medida empresa e atletas tem sua parcela de culpa nisso tudo. O que fica claro é que tanto no caso David Lama / Cerro Torre, como no caso Stefan Glowacz / Pedra Riscada, vislumbramos a ética duvidosa que reina atualmente em muitas empresas patrocinadoras, e também para alguns atletas.

      No fim das contas, o fato é que diante de todos os rolos a Red Bull permanecerá intacta, e continuará vendendo seu refrigerante adrenalizante não para os tipos escaladores que eles usam como marketing e a quem desrespeitam com ações como estas, mas sim para os tipos descolados e festeiros que matam várias doses com whisky numa noite.

      Para mim, isto se conecta de alguma maneira com as recentes discussões de locais de escalada sendo fechados, limitações nos parques, brigas acaloradas sobre degraus nas montanhas, e regulamentação política da atividade vertical como “esporte ou turismo”.

      Deixo abaixo um trecho do texto “Barbie nas Montanhas”, do alpinista russo Pavel Shabalin, retirado do artigo “Comercialização e Escalada Moderna”:

      “O Alpinismo era excepcional e sagrado pois era fechado às massas. E agora encontra-se na mesma situação histórica que o amor. Quando o amor era poesia, era excepcional e sagrado. Quando a mídia em massa colocou o amor na TV e em revistas, tornou-se pornografia.”

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