O PICO AGUDO E SUAS LENDAS

Circulo de Marumbinistas de Curitiba – Boletim CMC (Vol. 6 – 1950) Abril / Ano 6 – n.4

Uma colaboração de Alceu Stange Monteiro

Eram dezoito horas quando, após uma viagem de sol a sol, atingimos o ponto final da nossa jornada: a casa do Sr. Zéza, em Ibaiti.

Como passageiro do auto particular do Sr. Paulo Hecke, deixamos Curitiba às seis horas.

Ao longo da sinuosa rodovia do Cerne foram ficando vários aglomerados de casas coloniais, povoados, e as progressistas cidades de Piraí do Sul, Wenceslau Braz e Tomazina.

A residência do Sr. Zeca fica nas proximidades da fazenda do Sr. Paulo Hecke, de onde se divisa, em toda a sua magestade, o Pico-Agudo.

O nosso objetivo era atingir, no dia seguinte, o cume daquêle imponente môrro.

Tudo foi estudado com paciência e da caravana tomariam parte o Snr. Zeca, seu irmão Quincas, o Snr. Paulo Hecke, dois picadeiros e nós. Não se podia prescindir dos dois picadeiros, pois teria que ser aberta uma picada em vista da rota pré estabelecida nunca ter sido antes percorrida.

Pernoitamos na fazenda, situada no sopé do Pico-Agudo.

Noite inesquecível esta! A lua, em plena cheia, parecia um farol por sôbre a floresta imensa. Miriades de estrelas, cintilando como a obedecer o compasso de maestro invisível, contribuíam para deixar extasiado o observador, diante deste espetáculo que a natureza só nos oferece no sertão. E a música das copas das arvores sopradas pelo vento, e os milhares de sons emitidos por insectos invisíveis, tudo concorria para a beleza magistral do que a nossa visita podia abranger. O céu dava a impressão de uma imensa cúpula engastada de pedras preciosas!

O Pico-Agudo, qual sombra negra, parecia o gigante da lenda a guardar os encantos daquela região admirável!
Aquêle silencio confortador era de quando em quando quebrado pelo miado de uma jaguatirica, o grito de ave noturna, ou pelo coachar dos sapos, os contra-baixos da sinfonia mágica.

Extasiados, não presentimos os passos de gente que se aproximava. E voltamos para ao lado ao ouvir.

– Boa Noite.

A saudação era de três caboclos. E respondendo a uma pergunta que nos foi formulada, por um deles, dissemos:

– Sim. Somos nós mesmos que desejamos escalar o Pico-Agudo. Os senhores não querem ir conosco?

Não. Não queriam. Eles ali estavam para “bater papo” e nada mais.

Ora, como entre sertanejos as conversações são sempre muito interessantes, arriscamos uma nova pergunta:

– Os amigos já escalaram o Pico-Agudo?

“Seu” Abelardo, um dêsses caboclos matreiros e gostador de “casos”, deu uma rizadinha caborteira, para dizer:

– Eu já, sim sinhô.

– E que tal? É muito difícil a subida?

– Dificil não é, mas muito perigosa, Além disso, “seu” moço, lá em “riba” tá cheio de alma penada. Credo, cruz! E benzeu-se. E continuou, mecê nunca ouviu falá nisso?

Não tínhamos ciência disso e o sertanejo, animado pela nossa ignorância, seu uma chupada no seu pito de Cano de taquara, cuspiu para o lado e prosseguiu:

– Pois, com sua licença, vou contar o que sei. Dizem que lá em “riba” tem tezouro enterrado. Amanhã mecê vai ver a buraqueira que muita gente já fez para encontrar a panela. Mecê não arreparou que o Pico é visto de toda parte?

Diante da nossa afirmativa com um sinal de cabeça, o caboclo foi dando curso a sua lenda:

– Os homens de dantes enterravam dinheiro em lugá fácil de encontrá. Nada melhor do que o Pico-Agudo, não é memo? Assim, perto de uma imbuia véia deve haver ouro.

– Realmente, o Pico-Agudo é um ótico ponto de referencia, acrescentamos. Sabemos que os Jesuitas passaram por aqui, pois foi um dêles que fundou Jataizinho, que não fica longe daqui. Também fica perto o rio do Peixe, reconhecido como um dos rios paranaenses mais ricos em pepitas de ouro e pedras preciosas.

– Mecê é homem sabido. Mas deixe que eu termine o meu “caso”. Naquela era estava “prantada” na beira do Rio do Peixe uma “ardeia” de bugres. Os padres como mecê disse, depois de amansar essa gente, mandavam os bugres tirá as pedras preciosas do rio, que eram recolhidas numa gruta que existe no Pico. Esta gruta servia de morada dos padres, segundo se conta. Ha uma feita naquêle tempo e hoje no meio de árvores plantação de cactus muito grandes em duas filas, grossas. “Nhô” Quincas, com alguns companheiros, ha tempo, atingiram a entrada da gruta. Não entraram nela porque não tinham levado lanterna e tiveram medo de cobras, jaguatiricas e mesmo “abeias”. Verificaram que, depois da passagem estreita, havia um salão com mais de 6 metros de “artura” seguido de uns corredores. A entrada da gruta estava disfarçada com pedras amontoadas. Por isso voltaram para a fazenda sem continuar a exploração. Alguns dias mais tarde retornaram ao Pico e não encontraram a entrada da falada gruta, o que foi considerado um mistério. Pois olhe, moço, as almas penadas guardam o seu tezouro enterrado, fazendo desaparecê a entrada da gruta!

“Nhô” Abelardo, sempre chupando o seu pito, pigarreou, cuspiu atingindo novo recorde de distância, e continuou:

– Uma feita uma turma de dez homens lá trepou e ficaram com os cabelos em pé: Viram “vurtos” de padres que apareciam e desapareciam não se sabe como. Ouviam-se, depois, gritos de índios e sombras que se desfaziam em fumaça. Aquilo era o demo! Ainda “enziste” um mistério maior. Foi descoberto um corpo sêco de cristão sentado no meio do mato. Êste corpo foi sepultado e não ficou no buraco. Voltou a aparecer sentado no mesmo lugar! Enterraram outra vez, mas o corpo aparece de novo! Deve ser corpo de gente que não foi batisada!

O “bate-papo” prolongara-se até à meia noite. Falou-se, depois, de “lobisome” que, segundo aquêles narradores, costuma aparecer na região, de visões, “boi-tatá”, “saci”, enfim, sôbre todas as lendas que enriquecem o folklore da nossa terra, sempre com um sabor novo segundo a capacidade imaginativa do narrador.

Era ainda madrugada quando a casa do nosso distinto hospedeiro entrou em movimento.

Que dia maravilhoso iria ser aquêle! O sol, em toda a sua magestade doirava as copas das árvores das encostas das serras adjacentes, quando foi servido o nosso TODDY.

Depois dessa primeira merenda, foram iniciados os preparativos da excursão tão desejada. Aprestamos os nossos equipamentos, constantes de mochilas com os alimentos para o dia, sem contar o indispensável TODDY, e de armas de caça para enfrentarmos possíveis jaguatiricas, animais comuns nas redondezas.

Partimos. Primeiro por uma picada antiga de cerca de dois quilômetros. Depois os picadeiros entraram em função, manobrando a foice ou o facão com incrível agilidade.

A emoção era enorme. Iamos, enfim, enfrentar o desconhecido…

Sòmente ás 9 horas foi que alcançamos os encarregados de abrir a picada. Dois excelentes cães de caça é que nos levaram até êles, quando, então começamos a emocionante subida.

Após uma hora de marcha tínhamos atingido a metade da jornada, um tanto dificultada em face da abundância do sipózinho chamado “unha de gato”. Os primeiros arranhões no rosto e nas mãos eram sinais demonstrativos de que mais adiante a coisa seria mais difícil.

Nesta altura os cães se desgarraram acusando qualquer caça. Engatilhamos as nossas armas e ficamos alertas. O mais vaqueano nos acenou com a mão e avançamos para topar com uma vara de tatetos. O Sr. Quincas, caçador consumado, deixou passar os animais enfurecidos para abater, com um tiro certeiro, o ultimo dêles. Êste ficou bem escondido para ser transportado à fazenda na nossa jonrada de retôrno.

E, dali em diante, começou a escalada propriamente dita. Tudo era mais difícil. A rampa tinha uma inclinação de 80% coberta de árvores rendilhadas de cipó com enormes espinhos. Mesmo assim, conseguimos transpor o tremendo obstáculo até galgarmos um paredão de doze metros de altura.

O Pico-Agudo é uma grande rocha de pedra calcárea e, pela ação do tempo, as pedras nuas dos paredões estão lascando e desprendendo-se em blocos, que rolam pelas encostas abaixo. Assim, fomos encontrando pedras enormes, pesando talvez toneladas, que outrora faziam parte integrante das imensas paredes.
Ao atingirmos o paredão de pedras sobrepostas, os vaqueanos aconselharam o máximo cuidado. Não devíamos dar nem um passo, usando cipó como corda, sem estarmos absolutamente convencidos de que em cima não havia qualquer pedra solta, afim de não provocarmos uma possível avalanche.

A sorte nos foi propicia. Munidos de varas e apoiados em cipós fortíssimos, conseguimos escalar vários dêstes perigosos paredões.

Vimos os picadeiros empurrarem algumas destas pedras que, com assustador estrondo, perderam-se pela mata inclinada a dentro! Espetáculo impressionante diante dos estalos das árvores mais tenras e dos galhos das grandes figueiras brancas ao receberem o beijo fatal da rocha em queda destruidora!

Aquilo não devia continuar. Era pavoroso o rugir da floresta! E se lá em baixo estivesse algum caçador desprevinido?

O nosso apêlo foi atendido. Cessou a brincadeira.

Alcançamos enfim, o ponto terminal da nossa inesquecível excursão. Mas a gruta misteriosa não foi encontrada.
No cume do Pico-Agudo, divisando um cenário indescritível pela sua beleza agressiva e maravilhosa, fizemos a nossa refeição por entre exclamações de alegria e franca camaradagem.

Diante do espetáculo magistral oferecido pela natureza, compreendemos que o homem se sente feliz quando entra no seio da floresta, galga uma montanha, contempla uma cascata, porque é em tal momento que êle pode ver quão pequeno e insignificante se sente perante Deus!

Foi naquelas alturas, contemplando tais maravilhas desconhecidas, que nos resolvemos tornar marumbinistas. Porque vimos que este é o esporte que nos traz sensações novas em face do maravilhoso que a Natureza nos oferece, longe das tentações mundanas, que despertam os sentimentos do homem.

No seio da floresta, no cume das montanhas, nos prados verdejantes, no interior da gruta alcantilada é que sentimos o espírito respirar livremente e numa prece de eloquente agradecimento ao Criador de tantas maravilhas!
A lenda de “Nhô” Abelardo teve o condão de nos propiciar o ensejo de descobrir os encantos que podem proporcionar as excursões desportivas.

Era noite avançada quando regressamos à fazenda do Sr. Quincas. Durante a jornada, tínhamos o pensamento fixo nos enormes paredões de pedras soltas, sentíamos a música terrifica da avalanche e daquela produzida pelo canto da passarada multicor que têm na floresta do Pico-Agudo os seus ninhos.

Estamos cultivando o esporte paranisticamente denominado, marumbinismo, e isto devemos à inesquecível excursão ao Pico-Agudo!

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3 Responses to O PICO AGUDO E SUAS LENDAS

  1. Muito legal o relato da expedição! Além de ser histórico, muito bem escrito!

    O Pico Agudo é um lugar que pretendo conhecer.
    E esta gruta, será que existe mesmo?
    Li num livro que trata um pouco sobre o Pico Agudo, nele o autor fala que o substrato da montanha é diabásio. O diabásio, pelo pouco que entendo, não é uma rocha propícia ao desenvolvimento de grutas e cavernas… enfim.. Fiquei curioso e com muito mais vontade de conhecer este Pico fantástico!

    • Trad Friends disse:

      Olá João Carlos,
      Foi o Vita quem me repassou este texto de seus arquivos. Mesmo após muita discussão ainda não conseguimos esclarecer qual é o Pico Agudo deste relato, pois existem dois P.A. na região.
      O mais famoso (atualmente) fica em Sapopema/São Jeronimo da Serra, e existe outro em Ibaiti (município citado no texto). O fato é que em 1950 o município de Sapopema não existia, então obviamente não poderia ter aparecido no texto. Porém o P.A. de Sapopema tem como ponto de referência o importante Rio Tibagi aos seus pés, que também não foi citado no texto, gerando ainda mais dúvidas.
      O P.A. de Sapopema possui as mesmas lendas relatadas pelo autor, mas que também são lendas comuns a diversos outros locais do interior. Assim, ainda permanecemos com esta incógnita.
      De qualquer maneira, independente do local exato deste Pico Agudo, o texto nos mostra um pouco como eram as coisas há mais de 60 anos atrás, e descreve com maestria o mais importante… as experiências que buscamos nas montanhas.
      Grande abraço!
      Andrey Romaniuk

  2. Olá Andrey!

    Realmente o texto é muito bom! Não sabia da existência de dois Picos Agudo. Agora tenho mais um destino para conhecer.

    Mas o que você me contou me deixou mais curioso sobre essa discussão. Ai dei uma fuçada na internet, encontrei uns trabalhos da mineropar sobre as rochas do município de Ibaiti. E em levantamentos de campo foram encontrados alguns afloramentos de calcário na Formação Teresina no norte do tal municipio. Como no texto dos marumbistas cita que a montanha é constituída de calcário acredito que possamos encontrar qual o Pico Agudo que o texto se refere.

    Por acaso você tem uma coordenada de um dos picos? Se tiver dos dois é melhor. Pois eu posso encontrar esta coordena no mapa geológico e dependendo do local em que der, pode ser que nos mate a curiosidade.

    Grande Abraço..
    João Carlos

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