Pedalando por prudentes caminhos

Por Márcio Grochocki “Macarrão”

Não sei exatamente quantas foram as vezes que escutei o Ricardo relatando suas incursões por uma região localizada no interior do Paraná. Dizia que eram repletas de imensas cachoeiras que proporcionavam lindos visuais. Na época, pouco me interessavam; estava cego pela paixão da escalada. Considerava tudo que não envolvesse carbonato de magnésio e um par de sapatilhas uma grande perda de tempo. Coisas de uma criança ingênua.

No entanto um desses relatos encontrou-me durante um período em que me recuperava de uma lesão, coisa corriqueira, inerente a atividade de insistir em subir em paredes rochosas. Desta vez escutei-o de maneira atenta, saboreando o relato sobre cada viagem e sobre os locais já visitados. Porém o que mais me chamava a atenção em suas empreitadas eram a persistência e valentia de meu amigo. Fazia todos seus percursos a pé devido a falta de um automóvel; viajava sempre de ônibus até a cidade mais próxima e o deslocamento até às cachoeiras empreendia com a força de suas pernas. Às vezes a sorte o prestigiava com uma eventual carona. Relatou-me as dezenas de quilômetros que percorria diariamente; cansava até de ouvir. No entanto essa tática não era muito eficiente, visto que ele só conseguia visitar um único ponto em cada viagem; logo o fim do feriado se aproximava e as responsabilidades urbanas clamavam por sua volta.

O Ricardo me mostrava as fotos. Pensei: Para onde iríamos? Um lugar mais lindo que o outro! Vamos visitar todos! Porém sem um automóvel era impossível. Dinheiro? Bem pouco; disposição? Muita! Foi então que o Ricardo me falou: naquele lugar uma “barra-forte” quebraria uma galhão. Isso! Exclamei: vamos fazer nossa viagem de bicicleta! Porém a realidade logo deu as caras. Pedalávamos eventualmente, uma ida para a praia durante o ano, outra até Morretes. Éramos apenas amantes das duas rodas, não ciclistas. O percurso total envolveria quinhentos e sei lá quantos quilômetros, não tínhamos preparação para isso.

Surgiu uma idéia: e se levássemos as bicicletas de ônibus e as usássemos nos deslocamentos entre as cachoeiras? Essa era a solução! No entanto não tínhamos dinheiro. Precisávamos das passagens (ida e volta), alforjes, comida (não existiam muitos armazéns no percurso) e principalmente, dar uma levantada em nossas “magrelas”.

Os alforjes eu daria um jeito. Na época embrenhava-me em mais uma aventura profissional; costurava, quer dizer, tentava aprender com se costurava mochilas. Havia abandonado uma promissora carreira de economista; na verdade essa carreira só parecia promissora àqueles que a admiravam do lado de fora. Para mim a única promessa evidente era uma úlcera ou quem sabe um ataque do coração.

Precisamos de dinheiro. O Ricardo deu um jeito; contou uma história triste sobre a necessidade do reencontro do homem civilizado, em busca de seu eu primitivo junto à Mãe Terra. Conseguiu fundos, poucos, mas suficientes. Dentre os participantes, o Ricardo era o único que dispunha de sua parte dos recursos financeiros necessários à materialização da empreitada. Ainda não contei, mas conseguimos convencer outra pessoa a nos acompanhar, logo o apresento.

O que fazer? Perguntei-me. Devido a minha nobre decisão de abandonar minha promissora carreira, minhas aventuras (tanto profissional quanto a propriamente dita) não eram vistas com bons olhos pelo Banco Família Feliz e Compreensiva Ltda, porém a sorte estava a nos auxiliar.

Possuía em minha casa diversas peças, com as quais pretendia um dia montar um automóvel. Eram motivos de risadas para alguns e de conflitos com minha mãe, visto que não combinavam com a decoração da casa. Certa tarde recebo a visita de um velho amigo, que andava um tanto sumido, necessitando de algumas dessas peças. Adiei o sonho do meu carro para realizar outro mais próximo.

Nesse momento surge o terceiro elemento da trupe; Leziones, montanhisticamente conhecido como “Legends”. Amigo e parceiro de escalada que estava transtornado por não poder escalar devido a minha lesão. Ouviu o relato do projeto e aceitou participar prontamente. Acredito que ele tenha pensado: melhor que ficar em casa. Porém a nuvem da miséria assolava nossa equipe; Leziones não dispunha do dinheiro necessário, mas não pensou duas vezes e o obteve vendendo seu aparelho de CD.

Beleza! Vamos começar os alforjes. Grana curta, cordura comprada na medida, o Leziones preferiu economizar; acabei confeccionando seu alforje com o tecido de uma faixa de algum evento da prefeitura, que ele achou no parque Barigui.

Precisamos nos preparar! Nossa rotina diária mudou totalmente, fundamentando-se na bicicleta. Todos nossos deslocamentos eram executados a pedal e eventualmente empreendíamos alguns esticões mais longos a fim de aprimorar nossa resistência. Constatamos que tanto nós como nosso equipamento não estávamos preparados para tal viagem. Muitas pedaladas, câimbras, quedas e reparos depois; chegou a data de encher nosso alforjes e comprar as passagens. Nesse momento constatou-se que o dinheiro era suficiente apenas para adquirir as passagens de ida. Os inúmeros consertos realizados em nossas bicicletas ultrapassaram o orçamento. Solução simples: Voltaríamos de nossa viagem pedalando.

Enfim o grande dia. Logo cedo chegamos à rodoviária de Curitiba e embarcamos nossas bicicletas no ônibus. Partimos em direção ao nosso primeiro destino, a cidade de Guarapuava. A escolha estratégica se deu pelo fato desta cidade situar-se próxima ao ponto mais distante a ser visitado e encontrar-se no alto da Serra da Esperança. Teoricamente isso facilitaria muito o nosso trabalho, visitaríamos os demais pontos apenas descendo a serra. Doce engano.

A viagem de ônibus transcorreu de maneira tranqüila. Assistimos alguns filmes, entre eles “Missão Impossível”, e volta e meia comentávamos sobre como todas as descidas se transformariam em subidas em nossa viagem de retorno. Você pode estranhar a presença da TV no ônibus, mas outra vez a sorte nos brindou com um presente. No sufoco conseguimos comprar passagens convencionais, porém devido a um acaso do destino, viajamos confortavelmente em poltronas executivas.

Chegamos em Guarapuava e rapidamente montamos as magrelas e nos pusemos a rodar pela estrada. Estávamos tranqüilos quanto ao rumo que tomávamos, afinal o Ricardo já havia percorrido aqueles caminhos diversas vezes a pé e conhecia-os como ninguém.

Bicicletas pesadas e instáveis, subidas sofríveis, descidas e curvas incontroláveis. Eu e o Legends pedalávamos ressabiados. Já o Ricardo parecia mais confortável, pois já havia sofrido tanto por aquelas cercanias. Para ele a bicicleta parecia um tapete voador. Tão tranqüilo que em certo momento nos mostrou seu velocímetro, onde estava capturada a maior velocidade atingida no percurso. Em uma das descidas ele alcançou incríveis 80Km/h. Um arrepio gelou meu estômago. Embora a estrada fosse asfaltada, apresentava enormes crateras e um constante tráfego de caminhões carregados com toras de pinus. Nessa velocidade um encontro surpresa com qualquer um desses elementos seria fatal.

Prosseguimos viagem, uma forte chuva nos alcançou; molhados pedalávamos felizes, curtindo cada curva, cada nova paisagem. Passamos por uma reserva indígena, por um distrito chamado Guairacá, avistamos um pequeno e colorido cemitério e também uma igrejinha que exibia uma reluzente cúpula metálica. O asfalto acabou e a lama surgiu; a partir desse ponto até mesmo o Ricardo passou a pedalar prudentemente. Mais alguns quilômetros e chegamos ao nosso primeiro destino: o salto São Francisco.

Palavras e fotos não expressam a beleza do lugar. Montamos acampamento e reservamos dois dias a esse fabuloso local. Caminhamos até a base do salto, nos banhamos em suas corredeiras, sacamos diversas fotos e curtimos a grande recompensa de nosso primeiro dia de pedalada.

Salto São Francisco

O local era bastante freqüentado por turistas relâmpagos que lá chegavam, observavam o salto, exclamavam um “ó, que bonito!”, jogavam algum lixo para apreciar a queda, urravam um “uhu!”, tiravam uma foto e iam embora. Confabulamos entre nós, tamanho esforço para chegar até aquele maravilhoso local e nada aproveitar. Para nós um mês não seria tempo o bastante. Percebemos que em alguns momentos nós e os turistas nos analisávamos mutuamente. Nesse instante a mesma pergunta deveria surgir para ambas as partes: O que esses idiotas estão fazendo aqui?

Precisamos partir. Despedimo-nos do “Seu Chico” e rumamos em direção aos saltos gêmeos, pedalada agradável com terreno pouco irregular, mas com muita lama. Era verão e todo final de tarde chovia torrencialmente. Estava me habituando a pedalar naquelas condições, obtendo inclusive bons resultados. Foi quando notei que havia me distanciado de meus parceiros. Resolvi esperar um pouco. Logo o Leziones chegou e parou para também descansar. Algum tempo passou e nada de o Ricardo aparecer. Será que alguma coisa aconteceu? Esperamos por mais algum tempo e pudemos ouvir o som de sua bicicleta e logo o avistamos surgindo em uma curva. A sua expressão não era das melhores, mas logo veio a explicação: durante uma descida que terminava em um pequeno mar de lama, a bicicleta resolveu desaparecer do meio de suas pernas e ele acabou aterrissando de maneira nada agradável; graças a Deus nada sério. Mesmo assim não conseguimos rir muito do acontecido, pois a cara de indignação dele nos amedrontava e muito!

Mais alguns quilômetros de uma estrada que insistia em se transformar em trilha e chegamos a descida da serra, local que daria acesso aos saltos Barra Grande e Fazenda Velha, os gêmeos. Trechinho íngreme, várias vezes os freios de nada adiantavam, as magrelas continuavam a deslizar mesmo com as rodas travadas. Em alguns momentos a roda traseira parecia levitar e querer nos ultrapassar sobre nossas cabeças. Muito capim, facões produzidos pela erosão e pedras, muitas pedras, dos mais diversos tamanhos. Cautelosamente chegamos ao local que serviria ao nosso segundo acampamento, uma velha mangueira abandonada.

Muita pretensão de minha parte tentar descrever o lugar; não seria bom o bastante. Prefiro que você vá conhecê-lo e encontre suas próprias interpretações. Só uma recomendação: Sinta o lugar!

Saltos Gêmeos

Permanecemos ali por mais dois dias. Caminhamos até as bases dos saltos. Trilha difícil, muito mosquito, terreno sinistro; muito cipó e espinho, mas pode ter certeza, vale cada arranhão! Nessa trilha nosso amigo Leziones encontrou dentro do rio um lindo pedaço de cerne, tomou-o para utilizar na decoração de um de seus aquários. Protegia-o com tanto carinho, que às vezes nos irritávamos com isso. Fazer o quê? Ele realmente gosta de seus peixinhos.

Durante a volta dessa caminhada percebi que a minha mão direita inchava gradativamente (Fato que posteriormente notei ocorrer em todas as visitas àquele lugar e que até hoje não encontrei a causa.). Inchou de tal maneira que tinha dificuldade em dobrar os dedos e se isso não bastasse, também coçava de forma enlouquecedora. Como pedalaria no dia seguinte? Bem, não havia muito que fazer. Chegando em nossas barracas encontramos um bilhete escrito em um português sofrível, que questionava a nossa presença no local, indagando se tínhamos permissão para estar ali. Acreditavam que éramos caçadores. Mais um problema que resolveríamos na manhã seguinte.

No dia seguinte, bem cedo, nos despedimos dos saltos e dos mosquitos. Procuramos, mas não encontramos ninguém para dar explicações e assim seguimos rumo ao São Sebastião, a última de nossas paradas. Um dos piores trechos já pedalados em minha vida. Subidas e mais subidas em um caminho revestido de cascalho solto e ainda por cima, com um sol no mínimo infernal a nos assar vivo. Bebíamos muita água e ela começou a escassear. O cansaço das pedaladas e caminhadas dos dias anteriores começou a pesar em nossos corpos. Sorte que aprendemos a nos alimentar com nosso amigo Ricardo. Segundo ele, uma empreitada de peão merece comida de peão. Feijão, arroz, lingüiça, purê de batatas e macarrão fizeram parte de nossa dieta. Nada de “power bars” ou miojo. Carrego até hoje os conhecimentos culinários aprendidos nessa viagem.

Leziones e Ricardo

Mais uma vez o espírito kamikaze dominou nosso amigo Ricardo. Quando encontrávamos uma descida, lá partia ele desembestado, levantando poeira a toda velocidade. Pedras voavam para todo lado, ao longe as escutávamos ricocheteando em seu quadro. Mesmo que tentasse frear não adiantaria muito, seu freio deixara de funcionar de maneira eficiente há algum tempo.  O cansaço era imenso, para ele cair ou pedalar representavam o mesmo sofrimento; desta forma arriscava-se em seus mergulhos suicidas. Minha bicicleta apresentava os primeiros problemas, a roda traseira saia gradativamente de centro.

Encontramos um ponto com água, parada e enferrujada, daquelas com uma película colorida parecida com óleo. Decidimos que seria imprudente tomarmos daquela água. A sede era inversamente proporcional a quantidade do precioso líquido que dispúnhamos, apenas um gole para cada. Foi então que avistamos ao longe uma casa. Esta surgiu como a visão de um oásis em um deserto. Subimos motivados em nossas montarias e partimos rumo a salvação.

Chegamos até a casa, batemos palmas, mas ninguém nos atendeu. Já estávamos nos acostumando a isso; as poucas pessoas que encontrávamos no caminho simplesmente fugiam a nos ver, principalmente mulheres e crianças. Poucos foram os contatos com os moradores locais e quando estes ocorriam eram geralmente com os homens da casa. Algumas questões surgiram em nossas mentes: Seria o nosso cheiro? (Olhávamos para o céu e víamos os urubus nos seguindo). Somos tão feios assim? (Olhei para meus parceiros e conclui que meu estado também não devia ser dos melhores). Parecemos alienígenas com calção de lycra pilotando naves cheias de bolsas coloridas? (Esse foi escolhido como o motivo principal do terror).

Como ninguém nos atendia e a sede era uma situação emergencial, resolvemos entrar na casa a procura d’água. Encontramos a porta aberta, costume que ainda resiste por aquelas bandas, logo o Ricardo encontrou na cozinha um tambor cheio do precioso líquido. Abastecemos nossos corpos e cantis, agradecendo muito a hospitalidade do dono da casa que não estava lá.

Dá-lhe estrada e mais estrada. Chegamos a uma vila onde fizemos uma rápida visita a um amigo do Ricardo. O César é uma das amizades conquistadas em uma de suas grandes andanças por aquelas regiões. Comemos alguma coisa, descansamos um pouco e ouvimos algumas dicas de César sobre o caminho a seguir. Muitas pedaladas depois chegamos aos saltos São Sebastião e Mlot. Dois saltos dispostos frente a frente como diante de um espelho, criando um ambiente mágico. Armamos acampamento, fizemos escambo com o dono da propriedade (trocamos um pouco de café por alguns ovos), fizemos nosso jantar e finalmente dormimos. O dia foi extremamente duro e cansativo.

Salto São Sebastião

Dedicamos o dia seguinte a pequenas caminhadas, banhos de cachoeira e conversa jogada fora. Precisávamos nos recuperar física e mentalmente para a próxima jornada, a longa volta para casa. No fim desse dia apreciamos um pôr-do-sol magnífico e triste ao mesmo tempo. O som de uma moto-serra ecoava pela mata, logo vimos as vítimas. As silhuetas de duas araucárias tombavam no horizonte. Mesmo após a chamada consciência ecológica e tudo mais, seres centenários ainda são destruídos em prol da satisfação de “necessidades” humanas. Consciência dos erros e danos todos têm, o que realmente nos falta são atitudes positivas frente ao meio ambiente.

Acordamos bem cedo, arrumamos as tralhas e partimos rumo a Curitiba. No caminho avistamos a entrada do cânion Perehouski. Pensamos em visitá-lo, mas decidimos deixar para outra oportunidade. Pagava-se ingresso e nosso dinheiro era suficiente apenas para as refeições na estrada e solucionar alguma pequena eventualidade. Mais alguns quilômetros e passamos por uma placa indicando o acesso ao salto São João. Essa cachoeira nem o Ricardo conhecia. Nossas pernas, embora doídas, coçaram em rumar para ao menos um dia naquele lugar. No entanto a comida estava acabando e nossas bicicletas estavam bastante avariadas.

Todos estavam com as rodas traseiras fora de centro, em virtude do peso dos alforjes e do terreno acidentado; porém o caso do Ricardo era mais grave, vários raios quebrados e o pneu traseiro danificado porque enroscava no sistema de freio. Cicatrizes dos difíceis caminhos percorridos.

Chegamos ao centro de Prudentópolis e procuramos por uma bicicletaria. Encontramos uma, mas com a grana era curta optamos por consertar apenas a bicicleta do Ricardo. Enquanto o serviço era feito, descansamos, comemos algo e demos boas risadas com o dono da bicicletaria. Terminado o conserto, precisávamos partir. Na hora de nos despedirmos, a surpresa! O rapaz não cobrou pelo serviço dizendo ser um presente aos viajantes. Relatou-nos sua vontade de participar de semelhante empreitada e nos desejou boa viajem. Partimos, duzentos e poucos quilômetros nos aguardavam pela frente. No mínimo dois dias pedalando.

Bicicletaria

Muitos quando empreendem uma viagem desta espécie vangloriam-se se intitulando super-homens. Equipamentos apropriados, alimentação específica, acompanhamento médico, patrocínios, cobertura pelos meios de comunicação e equipes de apoio. Existem diversos exemplos de pessoas que empreenderam viagens homéricas abdicando de tudo isso. Alguns pelo prazer de estar lá, outros pelas necessidades que a vida lhe impõe. Pessoas que são admiráveis pela sua coragem e persistência diante de adversidades. É interessante observar e aprender com essas pessoas, desmistificar a aventura. Demonstrar a capacidade que cada um tem de superar seus imensos desafios.

Durante nosso retorno ultrapassamos um casal que viajava em uma simples bicicleta, juntamente com sua mudança que incluía um colchão. Para onde estavam indo? Nem eles sabiam. Talvez para onde a vida fosse melhor. E tem gente que ainda se considera “radical”.

Paramos em um restaurante para almoçar. Para falar a verdade, foi nesse lugar que desfrutei uma das melhores refeições de minha vida. O dono do estabelecimento, vendo a fome em nossos olhos, nos serviu da melhor maneira possível. A melhor chuleta do mundo!

Terminávamos de almoçar quando percebemos que o casal de viajantes se aproximava. Gente simples com semblantes exibindo cicatrizes dos sofrimentos impostos pela vida e pela viagem. Foram recebidos com o mesmo carinho pelo dono do restaurante e dele receberam uma farta refeição que saborearam ao nosso lado. Desvencilhar-se de preconceitos, encarar nossas dificuldades e apoiar-se na amizade foram algumas das lições que tivemos nessa empreitada. Seguimos viagem, tínhamos muita estrada pela frente.

Pedalar em uma rodovia é relativamente confortável. Pavimentação, água (muitas vezes gelada) e alimento a disposição tornavam nosso deslocamento mais eficiente. É claro que existem alguns inconvenientes; muita fumaça dos motores, vento contra e motoristas desatentos ou inconseqüentes.

Volta e meia recebíamos o carinho dos moradores dos locais que cruzávamos, alguns nos cumprimentavam, outros diziam coisas que não entendíamos ou simplesmente nos xingavam mesmo! Por outro lado, também recebíamos acenos de moças da janela de suas casa. Do lado de fora sempre uma lâmpada vermelha, que insistia em permanecer acesa mesmo durante o dia.

Concentrados em nossas pedaladas seguíamos nossa jornada. No fim de uma sofrida serrinha, parei em uma pequena banca para descansar, tomar um pouco de água e fôlego. Fui recepcionado por um simpático senhor. Enquanto os outros não chegavam, escutei alguns causos sobre sua vida, inclusive o da sua vitória sobre a bebida. Agora só bebo guaraná! Dizendo isso, desapareceu no interior de sua banca, mas logo voltou trazendo em uma das mãos uma garrafa contendo um preparado de xarope de guaraná e na outra um copo. Prontamente encheu-o e me ofereceu. Notei que a bebida tinha um aspecto estranho. Exalava um terrível cheiro azedo e sólidos entravam em suspensão quanto o copo era agitado. Não queria desprezar a hospitalidade daquele senhor. Disfarcei, fingi que bebia e na primeira oportunidade dispensei o conteúdo do copo. Enxugando a boca e fazendo ar de satisfação, entreguei o copo agradecendo. É claro que ele me ofereceu mais; recusei educadamente. Foi tempo o bastante para que o Legends chegasse. Da mesma maneira, o velhinho lhe ofereceu a bebida e sem titubear, encheu sua caramanhola e em seguida passou a saboreá-la. Tentei com diversas caras e bocas alertar meu amigo sobre a bebida, no entanto meus esforços foram em vão. Enquanto o Leziones se hidratava com aquilo, avistei o Ricardo que se aproximava. Avisei-o sobre o perigo, assim ele recusou veemente a hospitalidade do amável senhor. Pensei na possibilidade de nosso amigo Legends ser acometido de uma terrível disenteria. O que seria de nossa viagem? Graças a Deus nada aconteceu e depois ficamos sabendo que apesar da aparência e cheiro repugnantes, a bebida era muito saborosa.

Assim passou-se o dia, pedaladas e mais pedaladas. A noite e uma enorme chuva se aproximavam. Procurávamos por um posto de combustível desesperadamente, onde poderíamos dormir, comer e talvez quem sabe, tomar um banho revigorante. Encabeçava o trio nesse trecho, a exaustão tomava conta de meu corpo, câimbras eventualmente repuxavam minhas pernas, em uma grande descida aproveitei para descansar e deixei a gravidade me levar. Estiquei meu corpo e deliciei-me com o vento e com algumas gotas de chuva batendo em meu rosto, foi quando observei uma viatura da polícia rodoviária parada no acostamento, ao seu lado, dois policiais munidos de um radar. Um dos policiais apontou-o para mim, consegui ouvir um “bip”. Logo veio o sinal para que eu parasse. Fiquei perplexo, o cansaço não permitia que eu raciocinasse direito. “Quarenta e seis quilômetros por hora, aonde vai o senhor com tanta pressa?” Disse o policial. Demorei um pouco para entender a piada (na verdade estava com raiva por ter perdido o embalo para encarar a subida que vinha em seguida). Parei para conversar e responder as curiosidades dos policiais. Aproveitei para me informar sobre o posto mais próximo. “Existe um posto no fim dessa serrinha e outro um pouco melhor mais à frente!” Respondeu um dos policiais.

Seguimos caminho rumo a nossa próxima parada. A exaustão e a noite nos envolviam quando avistamos o posto citado pelos guardas. Paramos ali mesmo, não tínhamos condições para prosseguir.

BR-277

Ali entendemos o porquê do policial nos falar da existência do outro posto um pouco melhor mais à frente. Aquele, onde estávamos, era o pior posto do mundo! Banheiros imundos e sem água, bombas sem diesel e em anexo, um restaurante que servia uma comida terrível e era freqüentado por pessoas que aparentavam ter poucos amigos. Nossa presença parecia os incomodar.

O funcionário do posto conseguiu encher uma das caixas d’água, assim tomamos um banho gelado, porém revigorante. Tratamos com pomada nossas assaduras, colocamos roupas limpas, ingerimos algum alimento e estávamos prontos para dormir. O posto encerrou seu expediente. Decidimos dormir sob a cobertura das bombas com nossos isolantes e sacos de dormir. Amarramos nossas magrelas e desmaiamos. Porém nosso sono foi diversas vezes interrompido, ora por caravanas de ônibus provenientes do Paraguai, ora por algum caminhoneiro buzinando querendo abastecer. Inconscientemente montamos nossa morada em frente a um telefone público, assim acordávamos algumas vezes com pessoas andando entre nós buscando acesso ao mesmo. Uma longa noite mal dormida.

Pela manhã tomamos um rápido café e seguimos nossa sina. Meu corpo doía muito e as primeiras pedaladas proporcionaram um sofrimento intenso. Porém o corpo logo se aqueceu e a viagem retomou seu ritmo normal. A viagem mostrava o seu preço. O cansaço acumulado na empreitada dava as caras. Às vezes motivos bobos geravam pequenas discussões. Em um momento tive vontade de arremessar no meio do mato o maldito toco de cerne que o Legends protegia com a vida.

O Ricardo apresentava maiores sinais de cansaço. Decidimos que cada um empreenderia seu ritmo, para evitar a competição ou frustração entre nós. Deixamos todas as ferramentas com o Ricardo, caso algum problema mecânico acontecesse, esperaríamos até que ele chegasse. Passamos a viajar com um espaçamento maior entre nós do que o habitual. Assim não nos víamos muito e a viagem tornou-se um pouco mais suportável.

Muitas retas e subidas depois, que pareciam infinitas, passamos pelo Recanto dos Papagaios e logo chegamos a um restaurante próximo ao encontro entre a BR277 e a Rodovia do Café, nossa parada para o almoço. Aguardamos que todos chegassem, lavamos nossos rostos e partimos para o ataque. Era domingo, várias mesas ocupadas por famílias, escolhemos uma e iniciamos a nossa refeição. Essa viagem foi palco dos maiores pratos por mim já consumidos, todos se impressionavam as magníficas obras de engenharia que eu edificava e logo depois implodia, para dar lugar a um novo projeto. Ótima refeição, porém cara. Consumiu nossos últimos trocados.

Ânimos renovados, estômago cheio, um bom descanso na sombra e uma enorme placa indicava, estávamos a apenas 45Km de casa! A proximidade de casa facilitava nosso trabalho. Logo estávamos descendo a serra de São Luiz do Purunã. O espírito kamikaze de nosso amigo Ricardo ressuscitou e ele pedalava freneticamente nas descidas alcançando velocidade que permitia ultrapassar alguns carros e caminhões. Passamos por Campo Largo, um bom trecho de se pedalar, desfrutamos de paisagens bastante conhecidas. Nos despedimos de nosso amigo Leziones, ele mora em um bairro próximo, abandonou o grupo e seguiu rumo ao conforto de sua casa. Mais algumas pedaladas a frente e pudemos novamente admirar nossa querida cidade com seus prédios, automóveis e pessoas. Oito dias depois de nossa partida, retornávamos felizes com o dever cumprido.

Um breve descanso, juntei as poucas moedas que tinha no bolso e reparti um caldo-de-cana com meu amigo Ricardo. Um brinde à vitória sobre nós mesmos. Apreciamos a movimentação das pessoas no parque Bariqui. Divagamos um pouco sobre a necessidade que muitas pessoas tem de ostentar seus bens materiais. Devemos usar nossas supostas virtudes anexas ao corpo? Estávamos fisicamente exaustos, mas o sentimento de realização era maior. Seguimos em paz rumo a sanar a saudade que sentíamos de nossas famílias. Seguiria-se uma ótima semana com muitos relatos e fotos aos amigos. Depois outras viagens inesquecíveis surgiram, mas esta com certeza ocupará para sempre um lugar muito especial em minha memória.

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5 respostas para Pedalando por prudentes caminhos

  1. Taylor disse:

    Legal o relato, divertido inclusive, a mulher parte foi sobre defender com a vida o toco de cerne… kkkkkkkkkkkkk

  2. elcio muliki disse:

    Essa é a prova de que não é preciso dar a volta ao mundo para ter uma grande aventura. Parabéns pelo relato!

  3. rogerio disse:

    Bacana demais Marcião !!!!
    Uma baita aventura.
    Abraço

  4. excelente relato ,emocionante , é de rir e chorar ao mesmo tempo .defender o cerne com a própria vida ,ri litros kkkkkkk .grande abraço a todos .grande aventura .valeu !!!!!

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