Pensamentos ao vento

Por Alessandro Haiduke

 

E encontrei tanta liberdade como segurança
em minha loucura,a liberdade da solidão e
a segurança de não ser compreendido, pois
aquele que nos compreende escraviza
alguma coisa em nós.
Khalil Gibran – O louco

 

 

Havia aceitado o convite do argentino:
– Venha comer um legítimo cordeiro patagônico mañana, amigo. Soltando um longo sorriso ao final.

A festa reunia muitos gauchos, com alguma exceção (eu). Eram pessoas ligadas diariamente à criação de ovelhas e à extração de lã. Perguntava-me como poderiam estes animais viver em um lugar assim, sem saírem voando, literalmente, com os temperamentos do vento?
As cuias com yerba mate e água quente estavam sempre presentes. Assim como os ventos brotavam sem cessar na Patagônia, as palavras davam vida às estórias que alegravam a roda formada ao redor da cuia.
Falavam do início da povoação desse lugar; da escassez dos pastos em determinadas épocas de estiagem; dos predadores que, ao pequeno descuido, matavam as ovelhas; dos ventos que zangados enlouqueciam até o mais são dos homens; dos duelos com as lâminas afiadas; dos cavalos… Fantasmas de um tempo quando este lugar ainda era o fim da Terra.
Atentamente eu procurava entender as palavras, as gírias campeiras dificultavam a compreensão.
A reunião recordava um quadro antigo: homens com suas bombachas, seus laços de couro, seus chapéus e principalmente suas facas ostentadas ao cinto, com orgulho.
Dom José, o asador, era muito respeitado, não era um título para qualquer um. Ele cuidava dos cordeiros esticados nos espetos em forma de cruz, com o cuidado como se ainda estivessem vivos. Não cansava de dizer aos companheiros:
– Um bom assado exige paciência, muita paciência.
Enquanto o cordeiro não ficava pronto, as estórias apaziguavam as barrigas vazias.
Anônimo, eu ficava encostado nos cantos observando, tentando encontrar uma oportunidade para compartilhar o chimarrão e as estórias.
O argentino deu um grito:
– Venha sentar-se conosco hermano.
Recebi olhares desconfiados, de estranhamento, sabiam que eu não pertencia aquele mundo, era um estrangeiro pedindo passagem…
As estórias continuaram:

Sou nascido e criado aqui, minha vida é sobre um cavalo, não tenho temperamento para a lavoura. Meu irmão é o vento, nos entendemos bem apesar de nossos entreveros constantes. Nunca pensei em deixar este lugar, aqui abri meus olhos pela primeira vez e é aqui que eu quero fechá-los. Nem mesmo agora que o trabalho com as ovelhas é tão escasso e os estancieros já venderam quase todas as terras para os gringos, não sei para quê…
Hoje aparecem muitos gringos para conhecer os cerros. Antigamente era diferente, as habitações eram poucas assim como os visitantes.
Em um ano e dia que não me recordo, conheci um gringo, era um tipo esquisito, cabelos longos despenteados, creio que seu nome era Marco. Vinha de longe para subir as montanhas, falava um espanhol enrolado, com alguma dificuldade conseguia compreendê-lo.
Dizia que estava aqui para subir La Torre, o cerro tímido que prefere a companhia das nuvens aos olhares humanos.
Dizia que iria escalar a montanha sozinho sem nenhum companheiro, duvidei que conseguisse…
O sujeito contratou-nos para levar sua bagagem e de alguns amigos para a laguna Torre, onde montariam suas barracas.
Seus amigos traziam muito equipamento, câmeras para filmar a escalada, um tipo mais esquisito que o outro, vocês acreditam?
A estória daquele homem ficou em minha cabeça e como um amigo trabalhava no acampamento da laguna, escutava alguns comentários.
Nos poucos momentos que as nuvens saíam, olhava para a montanha e tentava enxergar algo, é claro que não conseguia. Eu não entendia nada de subir montanhas, mas pelas estórias e comentários sabia que era um trabalho difícil. Será que o gringo conseguiria escalá-la?
Nunca em minha vida imaginei subir alguma dessas montanhas, são assuntos que ignoro. Nessa labuta diária não sobra tempo para miudezas. Mas gosto delas do meu jeito não importa a época, se no verão com suas pedras em tons alaranjados ou no inverno todas vestidas de branco.
Passou um tempo e quase esqueci do assunto, o trabalho era demasiado…
Meses depois escutei sobre um homem que havia escalado La Torre sozinho, lembrei do gringo. Falavam que o tipo subia a montanha de camiseta naquele frio. Eu não acreditei, só vendo… E ainda dizem que subiu mais algumas vezes com os companheiros para filmar… Queria ter visto na TV…
Quando sobrava algum tempo, vinham à cabeça umas interrogações sobre os motivos que faziam os homens sofrerem tanto para subir uma montanha, quem sabe podiam até morrer naquele gelo todo, dizem que muitos já morreram. E falam que dinheiro os sujeitos quase não ganham, gastam é mais… Por que então seria?
Eu também sofro aqui nesse lugar, mas o meu motivo é outro, agarrar a vida, ter o que vestir e o que comer.
Não sei, mas um bom motivo deve existir? Será que não?
Encontrei outros homens que iam as montanhas, tinha até alguns argentinos. Depois que subiam as montanhas eles voltavam com um olhar estranho, cheio de contentamento, mistérios…
E o tal de Marco, dizem que algum tempo depois morreu em um cerro distante, sozinho. Na vida e na morte, companheiro de si mesmo.
Já me convidaram para ir ao pé dos cerros, mas não vou não. Prefiro vê-los daqui, têm mais segredos. É no distante que se percebe a sua imponência quebrando a planura dessas terras.
Uma coisa tenho certeza, esses gringos vêm, sobem as montanhas e vão embora. Eu penso diferente, fico aqui o ano inteiro, não importa o calor, o frio, o vento. Sempre estou aqui para saudá-las quando não resta quase ninguém a lhes fazer companhia e elas ficam quase que esquecidas.

– O asado está pronto!
Os gauchos largaram as cuias e as estórias e foram comer o cordeiro. Lá eu fiquei, com meus pensamentos ao vento.

A Patagônia sempre foi mais uma idéia que um lugar.
Pablo “Polly” Walker

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2 respostas para Pensamentos ao vento

  1. Bruno Alberto disse:

    Caramba Alessandro!! Sem palavras, meus pensamentos foram soprados pra longe…

  2. Miriam Chaudon disse:

    “Eu não pertencia aquele mundo.
    Era um estrangeiro pedindo passagem”.
    Eu também me senti e ainda me sinto uma estrangeira nessa terra de gaúchos, seus assados de cordeiros, rodas de chimarrão que nunca participei…
    Sua história é bonita. Simples e bonita. Encanta pela simplicidade e fluência das palavras.
    E que coisa mais linda a compreensão e visão do gaúcho: “Prefiro vê-los daqui, têm mais segredos. É no distante que se percebe a sua imponência quebrando as planuras da terra.”
    Belo texto!

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