Cosas Patagonicas

Por Alessandro Haiduke

 

 

“Nesses instantes havia encontrado a resposta
definitiva a pergunta tão repetida:
-Por que escala montanhas?
…A resposta era:
-Para escapar da prisão.”
Ludwig Hohl

 

 

      Envoltos pela névoa, dois homens lutavam contra o vento incessante. Lutavam para se manterem presos a parede de granito polido.
      José dividia sua atenção entre o frio que o congelava até os ossos e a segurança do companheiro, que guiava a cordada. Ao contrário do seu desejo a corda subia lentamente, um prenúncio das dificuldades enfrentadas. Sem enxergar seu colega ele procurava imaginar os lances superiores. A calma que tanto se esforçava em manter era minada pouco a pouco pelo vento, assoviando ao contato com o seu capacete. Procurava pensar em coisas mais agradáveis, mas o incomodava a demora daquela cordada, consumiam-se segundos, minutos, horas…
      A corda afrouxou um pouco e nesse instante escutou um grito:
      – Queda!
      Neve e pedras caindo, ao lado de José estava o rosto espantado do seu colega. Este parecia buscar algo distante em sua memória, algo que havia perdido. Somente o vento quebrava o silêncio com suas rajadas.
      – O que aconteceu?
      – …
      – Vamos fale comigo!
      – Não consigo, me esforcei ao máximo… O lance acima é muito difícil. Com esse vento então…
      – Então coloca um estribo e passa em artificial mesmo, estou congelando e quero sair o quanto antes daqui.
      O que era um desafio entre o corpo humano e o equilíbrio transformava-se em uma questão de sobrevivência.
      Assim como caiu, repentinamente o homem recomeçou a escalada, sem pronunciar mais nenhuma palavra.
      José sentia cada vez mais o frio agindo sobre seu corpo. Minutos depois percebeu que não havia perguntado sequer se seu companheiro estava bem. Não teria se machucado na queda?
      Novamente o tormento da espera. Aos poucos sua mente era ocupada por imagens, que o levavam a um passado distante.

      A discussão ocorria pela mesma razão de outras, mais uma vez ele deixaria sua esposa em busca de uma aventura. Algo que ela tinha dificuldade em compreender, mais uma conquista do inútil como o título de um livro que ocupava um lugar de destaque na estante de livros.

      – A escalada… é só nisso que você consegue pensar, você e seu egoísmo! Eu sempre fico em segundo plano…
      A escalada havia se transformado ao longo dos anos em algo mais que um esporte para José, fazia sua vida ter sentido, suportar a falsidade que diariamente encontrava em seu cotidiano.
      Dessa vez conheceria a parte sul da América, a Patagônia, local que tanto povoou sua imaginação. Perdeu as contas dos sonhos em que escalava essas montanhas e ainda sonolento despertava com a sensação de ter acabado de tocar aquele granito gelado. O desejo estava se tornando realidade. Outra vez deixaria sua casa, sem receber a aprovação da esposa.
      Conexões de avião, ônibus, táxis eram rotinas de toda viagem, a parte mais desagradável. Na Patagônia, José aprendia que para escalar não bastava somente chegar ao lugar. Era preciso ser paciente, muito paciente. Os deuses barométricos que habitavam o sul eram caprichosos, concedendo somente um ou outro dia de bom tempo em meses de espera.
      Também não era fácil escolher o objetivo, diante de tantas possibilidades existentes. Mas uma montanha já havia lançado sua canção ao vento e aprisionado o coração desse escalador: o Cerro Torre. Diante de inúmeras rotas já demarcadas, escolhia a incerteza, uma linha inteiramente nova pela face sul.
      O mau tempo exigia boa dose de criatividade, inventar atividades para passar o tempo. Para sorte dos escaladores, a previsão indicava uma pequena janela de bom tempo, seria a última tentativa da dupla. As notícias de boas condições metereológicas traziam ao povoado uma atmosfera mista de expectativa e insegurança.
      Sem perder tempo os dois companheiros arrumaram todos os equipamentos e na madrugada caminhavam rumo a seu objetivo, mais um pouco e estariam frente a frente com o Torre. Mas antes era preciso caminhar, caminhar muito.
      Aos pés da parede, os dois homens olhavam a massa de gelo e granito que se erguia verticalmente sobre seus olhos.
      Uma atmosfera densa impregnava o ambiente. O céu estava azul sem nenhuma nuvem. Chegara o momento do tudo ou nada.

      José foi despertado dos devaneios por uma pequena pedra que acertou seu capacete. Depois de muitos esforços estavam ali, a uma centena de metros do cume, lutando contra dificuldades técnicas e um tempo que de azul celeste bruscamente transformara-se em um vendaval cinza.
      Ele estava diante do que tanto buscava, mas nesse momento as coisas estavam saindo do controle. Valeria a pena arriscar tanto? Poderia nunca voltar a ver as pessoas que amava, nem teria tempo de se despedir. Subir ou descer? Abandonar agora, que estavam tão próximos do cume? Eram questionamentos insistentes que o inquietavam ainda mais.
      Em situações como essa o tempo diminuía o ritmo, minutos pareciam horas.
      O vento soprava, uivava, como se quisesse arrancá-los da montanha.
      Mesmo diante de tantos esforços, o guia havia sofrido outra queda. José, ao ver os olhos com lágrimas de seu companheiro percebeu que a escalada havia terminado ali. Um momento de silêncio, onde por um instante até o vento se calou. No ar misturavam-se sentimentos de alívio e frustração. Sem se olharem os dois começaram a arrumar as coisas para a descida.
      O frio estava insuportável, José percebia que os dedos dos seus pés estavam insensíveis.
      Nos rapéis, as duas cordas que haviam levado iam ficando pela parede, enroscadas forçavam os escaladores a cortá-las pedaço a pedaço. Era o preço que a montanha cobrava pela permanência em seus domínios.
      Nessa situação extrema, José sentia a proximidade de uma tragédia e jurava silenciosamente que caso descesse, nunca mais voltaria a escalar.
      Quando os dois escaladores já não conseguiam extrair mais forças de seus corpos, perceberam que o chão estava próximo, faltava somente um rapel.
      José aguardava na parede enquanto o companheiro descia primeiro. O homem havia chegado ao chão, estava retirando o material de escalada quando percebeu que algo caía ao seu lado e continuava quicando pela neve. Vasculhou a parede em busca de José, mas somente o que viu foi a corda balançando livremente. Não havia nenhum sinal dele.

      José mal conseguia abrir os olhos, paredes de gelo azul o pressionavam dos dois lados, sentia-se sufocado. Tentou gritar, mas a voz não saía. Procurava se acalmar, mas percebendo que o amigo não chegava, era vencido pelo desespero. Fechou os olhos, como se pudesse fugir dessa situação como se foge de um pesadelo.
      Percebeu então que algo tocava a sua mão. Assustou-se por não encontrar um rosto familiar, ao invés disso lá estava uma mulher jovem de olhos verdes. Ele fez várias perguntas, sem esperar as respostas:
      – Onde está meu companheiro? Demorará a me resgatarem? Quem é você?
      Ela nada respondeu. Ao invés das palavras, esboçou um calmo sorriso e apertou com força suas mãos.
      Lágrimas escorriam no rosto de José. Sentia-se afortunado por ter alguém ao seu lado naquele momento.
      Não estava com medo da morte, só não queria que ela o encontrasse de olhos fechados, tentou mantê-los abertos.

      – José, José, José…
      Quando despertou percebeu o rosto de seu amigo, que o olhava com alegria.
      – Pensou que eu o abandonaria? Logo chegaremos ao refúgio e você terá atendimento médico. Agora descanse.
      Vários homens se esforçavam para carregá-lo em uma maca.
      – A mulher que me encontrou, onde está agora? Gostaria de agradecer sua ajuda.
      – Que mulher? Não tinha ninguém junto a você quando o encontramos.
      – Não, tenho certeza que ela estava lá. Conversou comigo, senti o calor de suas mãos, tinha olhos verdes…
      – Não. Não tinha ninguém com você quando o encontramos. Você deve ter visto coisas, uma alucinação. Talvez tenha batido a cabeça na queda.

      José caminhava com dificuldade por causa das muletas, havia retornado a El Chaltén para se despedir. Encontrou seu amigo e com uma ponta de inveja recebeu a notícia que após a data do acidente havia aberto uma grande janela de bom tempo e ele, em companhia de um argentino, havia escalado o Torre pela rota dos Italianos, na face oeste.
      Ficou o resto do dia sozinho sentado em uma pedra, aguardando uma última visão das montanhas. O tempo permanecia enevoado. Ele folhava uma revista para passar o tempo, quando em uma das páginas reconheceu os olhos verdes, não tinha dúvidas, era a mulher que o havia ajudado. Continuou a descer o olhar em busca de informações. Deixou a revista cair ao chão.
      A mulher, uma escaladora brasileira, havia morrido em um acidente, alguns meses antes.

Dedicado à Roberta.

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6 Responses to Cosas Patagonicas

  1. Gabi disse:

    Caraca…lindo…mto lindo o texto! PArabéns!!!!!

  2. elcio disse:

    Parabéns pelo texto, alucinante!

  3. Bruno Alberto disse:

    Ouvi histórias desses olhos verdes na Patagônia, até hoje por lá são lembrados… Pena não os ter conhecido. Parabéns Alessandro, lindo texto!

  4. Espetacular! Betinha vive pra sempre em nossas mentes e corações.

  5. Túlio Araujo disse:

    A Rober foi minha grande incentivadora para escalada e conhecer a Patagônia. Escutei por inúmeras vezes em suas aventuras na Patagonia , EUA e Groenlandia. Tive o grande prazer de conhece-la e conviver com ela ! Com certeza ela está entre nós, curtindo com nossas conquistas e nos protegendo do incerto. “MAs se não é a Roberta Miranda!!! ” rsrsr

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